Ao longo da nossa vida vamos desenvolvendo ódios viscerais, mesmo viscerais, que nos saem das entranhas mais podres do nosso corpo e com as quais queremos conspurcar o objecto do nosso ódio. Há quem visualize estes ódios com tiros de carabina no meio do crânio dos visados. Eu acho que o conteúdo visceral é melhor. Claro que uma bala no crânio provoca muito nojo a quem o vê. Afinal são bocados de cérebro que se espalham aleatoriamente sabe Deus por onde juntos com verdadeiras piscinas de sangue, daquele bem vermelho, que faz desmaiar o macho mais macho da face da terra. E uma bala no crânio tem também um carácter violento, coisa que nós queremos ser para com o objecto do nosso ódio. Mas eu prefiro o conteúdo visceral. É nojento. Em vez de desmaio provoca vómitos, náuseas, as pessoas querem fugir a sete pés. O oposto de um bom bocado de cérebro que mesmo sabendo desmaiar, toda a gente quer ver como um belo episódio da novela da desgraça alheia.
Portanto, os meus ódios são viscerais e não balísticos. E de entre muita coisa que odeio está uma especial. A Praia. Perdoem-me os amantes. Perdoem-me as mães e os pediatras que dizem que a água salgada faz muito bem às crianças. Perdoem-me os biquinis, de que gosto bastante, especialmente se bem vestidos. Mas eu odeio a praia.
O Markl, há uns anitos, afirmou que odiava a areia da praia. Pois, estou com ele. Reparem no suplício. Chegamos junto ao areal e a dúvida é a primeira coisa que se instala. Descalçamo-nos? Vamos calçados? Se nos descalçamos, logo aquela areia fina começa a instalar-se por entre os dedos dos pés, a provocar comichões, mau estar. Ataca com o oportuno sentido de um vírus informático precisamente quando estamos a trabalhar no mais importante ficheiro da nossa vida e do qual não possuímos qualquer cópia de segurança. Assim é a areia. Quando estamos prestes a saborear uma belíssima manhã de Verão, com bom Sol, bons biquinis, o sonzinho das ondas que nos acalmam, ela ataca feroz. Sem dó nem piedade.
Mas se vamos calçados durante a pesquisa do nosso lugar ideal, ela, com o mesmo efeito, mas com outros métodos, continua a batalhar para nos derrotar. Vai entrando, sorrateira, sem que nos demos conta. Primeiro começamos a sentir um elemento estranho ao sapato, téni ou chinelo. E sacudimos suavemente, procurando disfarçar o que pode ser uma péssima imagem para um homem numa praia, sacudir o pé qual cão depois de mijar. Continua a entrar. E nós sacudimos com um pouco mais de impetuosidade, mas ainda conseguindo disfarçar o nosso lado de cão. E por fim o incómodo é tão grande que preferimos tirar o téni, sapato ou chinelo ali mesmo, onde quer que seja, a fim de não sermos mesmo caçados com a pata alçada. E voltamos ao tormento de andar descalço.
Em suma, quer se ande calçado ou descalço, a areia está sempre ali para nos atormentar o espírito. E logo na altura em que precisavamos de todo o nosso potencial intelectual para conseguir descobrir um lugarzinho santificado, O lugar que tanto ambicionamos, mas que, qual pote de ouro no fim do arco-íris, nunca encontramos…
(continua)
2006-12-21
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3 comentários:
Ora aqui está a bela narrativa da praia!
Estou ansioso pela continuação.
E era isto que querias que eu tivesse lido? Se não fosses meu amigo... até ficava chocada com o que li... Como és um gajo porreiro e meu amigo, até reconheço que me fartei de rir com a descrição das belas(?) praias (tipo Costa de Caparica, claro...)
(Ritinha)
Bem....
Recordo-me de um conselho que me deram em tempos, identificando em cada acontecimento um lado bom e mau das coisas...gerir as espectativas parece estar na ordem do dia, tb aqui.
Fiquem bem,
Abraços,
Boas entradas,
Melhores saídas,
Lma
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